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As Bolas das Copas e um Volume Especial
O objetivo principal dessa sala é calcular o volume da bola de futebol da Copa do Mundo de 1970. Como o futebol é uma paixão nacional, faremos um resumo do objeto que é o protagonista de um jogo de futebol: a bola.
Das pelotas iniciais – feitas de couro, fechadas com cadarço e com bico de encher aparente – até as bolas atuais – impermeáveis, leves, ágeis e com design diferenciado – a evolução das bolas traduz a evolução do futebol e da forma de jogar. As bolas das Copas acompanham estas transformações ao longo da história e apresentam as singularidades de cada país-sede.
A Era das Bolas Pré-Adidas
Vamos iniciar por um vídeo que mostrará a diferença entre as bexigas de couro da década de 1930 e os materiais sintéticos atuais de alto desempenho.
Nas Copas do Mundo de Futebol, há o desafio de se criar uma bola nova a cada 4 anos. A tecnologia das bolas vem percorrendo um longo caminho desde a primeira versão criada, muito antes de 1930, e a trajetória das bolas da Copa é um retrato fiel de toda essa evolução.
Este é o Modelo T, uma das bolas mais conhecidas de todos os tempos. Era fabricada na Inglaterra, com couro marrom, fechada com cadarço e composta por painéis em forma de T. A também chamada bola de capotão possuía costuras externas e o bico de encher ficava para fora. Na chuva, ela absorvia água e ficava muito pesada.
Na primeira edição da Copa do Mundo não havia uma bola oficial, e as seleções deveriam entrar em acordo sobre a bola do jogo. Na final entre Argentina e Uruguai, não houve acordo e, assim, cada tempo foi jogado com uma bola diferente.
No primeiro tempo, a bola do jogo foi a Tiento (representada abaixo), dos argentinos, e o placar foi de [tex]2\times1[/tex] para a Argentina. No segundo tempo, a bola foi a Modelo T, escolha do Uruguai. O jogo terminou em [tex]4\times2[/tex] para o Uruguai. O Uruguai tornou-se o primeiro Campeão Mundial.
Nesta época, o futebol crescia no mundo todo e havia diversos fabricantes de bolas. Entretanto, Mussolini exigiu que as bolas utilizadas na Copa da Itália fossem feitas em seu país. Foi aí que nasceu a Federale 102, uma bola de 13 painéis e cadarços, toda feita em solo italiano. Pela primeira vez, os cadarços de couro foram substituídos por cadarços de algodão. Isso representa um pequeno detalhe, mas também uma melhoria importante. Como o algodão é muito mais macio do que o couro, isso encorajou os jogadores a cabecear mais a bola.
A Allen, bola oficial da Copa de 1938, era fabricada em Paris, sendo composta por 13 painéis e cadarços, bem semelhante a Federale 102. Apesar de ser a bola oficial, outros modelos também foram usados nas partidas.
A Allen era costurada à mão e tinha que ser inflada por uma pessoa qualificada. Se o responsável por inflar a bola e fechar os cadarços não fosse preciso no processo, a bola não se tornava perfeitamente esférica e isso influenciava na trajetória da bola.
Allen também era o nome do fabricante da bola e foi a primeira empresa a ter o privilégio de estampar sua marca nas bolas da Copa do Mundo.
Ao longo das décadas, cresceu o número de empresas que se dedicaram a fabricar, inovar e vender produtos voltados para o futebol, incluindo roupas, artigos para treino e, por que não, bolas.
Ainda na década de 1930, a empresa argentina Tossolini criou uma bola com uma válvula oculta que poderia ser bombeada, ao invés de soprada manualmente através dos cadarços. Apesar de oferecer mais segurança para as cabeceadas, a FIFA não aceitou este design e proibia o uso destas bolas nos jogos da Copa.
Somente na Copa de 1950, realizada no Brasil, o design com a válvula oculta foi aceito e implementado nos jogos: era a bola Superball Duplo T. Esta bola tinha mais uma novidade: as costuras também eram internas.
A Superball Duplo T consistia em 12 painéis idênticos, com bordas mais curvas, costuras e bico internos. Apesar da evolução em segurança, a Superball ainda era uma bola de couro costurada à mão. Assim como na Copa anterior, o fabricante teve permissão para imprimir logotipos e textos na bola. Nas edições seguintes, esta permissão foi suspensa e as bolas voltaram a ser lisas.
A Swiss World Champion, fabricada na Suíça pela empresa Kost Sports de Basel, tinha um desenho único: 18 painéis e bordas em ziguezague costuradas à mão, sem cadarços, sem textos ou logos impressos em sua superfície. A maior mudança era na cor: um vibrante amarelado. Com isso, a bola ficou mais visível durante as partidas chuvosas, com campos cobertos de lama.
Curiosidade!
Para a Copa de 1958, foi aberto um concurso internacional para a escolha da bola. Foram feitas mais de 100 inscrições. A grande vencedora foi a empresa sueca Sydsvenska Laderoch Remfabriken, que forneceu uma bola chamada Top Star, notável por sua superfície “impermeável” de cera.
A Top Star tinha um design popular com painéis longos e sortidos. A válvula de inflação ficava no centro de um pequeno painel. O tratamento com cera impermeabilizante, tornava a bola mais resistente à água e, consequentemente, menos pesada quando molhada. Apesar da novidade, ainda entrava água pelas costuras da bola. Ela foi feita em três cores: amarelo, marrom claro e branco. A bola oficial do campeonato era a marrom clara, mas em partidas chuvosas eram usadas as bolas brancas.
VOCÊ SABIA?
► A decisão de qual bola usar como oficial e quais as condições para o uso das outras bolas foi feita durante uma reunião, realizada com este objetivo, no dia 8 de fevereiro de 1958; ► A queda de braço entre a FIFA e as fabricantes de bola continuava. As bolas oficiais das Copas da Suíça 1954, Suécia 1958 e Inglaterra 1966 tinham que ser isentas de impressão (seja de texto ou de marca), independentemente de os fabricantes colocarem bolas com impressão no mercado geral para venda. Estas vendas aconteciam em paralelo aos torneios; ► Este era um regulamento estranho da FIFA, porque nas edições de 1950, no Brasil, e de 1962, no Chile, as bolas oficiais Superball Duplo T e Crack tinham marca e nome impressos em sua superfície.
A bola Crack tinha um design inovador: era composta por 18 painéis poligonais irregulares e curvos, com formatos diferentes, unidos por costura manual, formando um grande quebra-cabeça. Possuía uma válvula de látex, também inovadora, que fazia com que o ar ficasse retido por mais tempo dentro da bola, mantendo o formato esférico.
Do ponto de vista estético, era uma bola muito elegante, adequada para a competição de futebol mais importante do mundo. Mas, como nem tudo é perfeito, a bola tinha um defeito: a qualidade do seu revestimento colorido era baixa e não durava muito tempo, causando falhas de cor na superfície. Além disso, as seleções europeias não gostaram dela.
A bola seguia sendo coadjuvante dos craques, sem grandes detalhes. A Crack também era marrom, cor original do material com que era fabricada, o couro. O nome Crack jamais seria usado atualmente. Vale dizer que a droga batizada com este mesmo nome só surgiu nos anos 80, ou seja, duas décadas depois desta Copa.
Fabricada por uma empresa britânica, a Slazenger Challenge era feita com 25 painéis retangulares de couro de alta qualidade e inteiramente costurados à mão, sem marcas e textos em sua superfície. A válvula de inflar ficava no centro de um pequeno painel e o sistema era feito de borracha de látex, o que proporcionou excelente esfericidade.
O sucesso foi tanto que sua composição foi adotada ao longo dos anos por outras marcas. Possuía três cores: branca, amarela e laranja. Embora o modelo mais utilizado tenha sido o branco, na memória dos fãs de futebol a bola laranja da final de Wembley continua sendo a mais forte.
A Slazenger Challenge representa o fim da era pré-Adidas. A partir de 1970, a Adidas assumiu a tarefa de projetar e fabricar as bolas da Copa do Mundo da FIFA, se tornando a fornecedora oficial das bolas do evento.
A Era das Bolas Adidas
As bolas de futebol feitas com pentágonos pretos e hexágonos brancos são obra da marca Adidas, que nasceu em 1949 com a proposta de criar produtos inovadores para atletas.
A bola oficial da copa de 1970 foi a Telstar. Esse nome reúne as palavras televisão e estrela, em inglês, e também faz referência ao satélite Telstar, que transmitiu a Copa naquele ano.
A bola era formada por 32 painéis (20 hexágonos brancos e 12 pentágonos pretos) costurados a mão, em formato perfeitamente redondo. Sua superfície externa possuía um revestimento plástico especial chamado durlast, que protegia o couro mais do que os anteriores, prometendo uma bola realmente à prova d’água, mas não foi possível.
Mais adiante, iremos abordar a geometria da bola dessa Copa.
A Telstar de 1974 é a prova real do sucesso da sua antecessora. Com o mesmo nome e mesmo design, a “nova” Telstar tinha apenas uma mudança no revestimento plástico da sua superfície.
Desta vez, foi utilizado um durlast mais forte, que também evitava que a água entrasse na bola através das costuras. Para os jogos à noite, foram criadas bolas de cor branca e laranja, inspiradas na bola da Copa de 1962. Estas bolas foram chamadas de Chile e rolaram em apenas 8 partidas.
Assim como as bolas anteriores, a Tango era formada por 32 painéis hexagonais e pentagonais. A novidade eram os triângulos pretos e curvos, impressos na superfície branca de cada painel hexagonal. Como os painéis pentagonais também eram brancos, os triângulos desenhavam círculos sobre a superfície da bola e, com o movimento, criavam um efeito visual muito atraente e elegante.
A bola, inspirada na dança argentina, é considerada um clássico do futebol. Prova disso é que seu design foi aplicado em todas as bolas oficiais da Adidas até a Eurocopa de 2000.
A Tango España era muito parecida com a Tango anterior, mas trazia duas inovações tecnológicas: revestimento de poliuretano com costuras seladas. Estas novidades reduziram drasticamente a absorção de água, minimizando o aumento do peso da bola em partidas chuvosas. Ela também foi a primeira bola Adidas a ter o nome inspirado no país anfitrião e foi a última a ser feita em couro.
A Azteca foi a primeira bola feita com material sintético. Isso aumentou sua durabilidade, minimizou a absorção de água e permitiu que a bola recuperasse sua forma original imediatamente após ser chutada, mesmo em grandes altitudes, em superfícies irregulares ou em condições molhadas.
Seu design inaugurou a inspiração na cultura do país anfitrião: foram impressos grafismos astecas em homenagem ao povo que viveu no México entre os séculos XIV e XVI. Desde então, a Adidas manteve essa prática para todas as bolas da Copa do Mundo.
A Etrusco Unico tinha desenhos que remetiam à civilização etrusca, que dominou parte da Itália por cinco séculos até serem subjugados pelos romanos. Completamente produzida com materiais sintéticos, multicamada, e tão impermeável quanto as anteriores, a bola oficial da Copa da Itália foi apresentada para o Papa antes do torneio.
A grande novidade estava no planejamento da produção. Devido à alta demanda, a bola foi produzida em muitos países, mas apenas a versão fabricada na França foi usada durante a Copa do Mundo da Itália. Apesar de toda a badalação, a bola foi alvo de críticas devido ao baixo número de gols desta edição do Mundial.
A Questra, nome derivado de Quest of Stars (busca pelas estrelas, em inglês), repetia a fórmula de incluir desenhos nos triângulos da Tango e foi a última bola preta e branca da Copa do Mundo.
Havia duas justificativas para o nome e os grafismos de estrelas e constelações: inspiração na bandeira dos EUA e o 25º aniversário da missão Apollo 11, quando o primeiro homem pousou na lua.
A Questra foi fabricada com cinco materiais diferentes e tinha uma camada externa de polietileno branco, conferindo mais suavidade ao toque, e, ao mesmo tempo, maior controle e maior velocidade aos chutes.
Considerada a bola mais bonita e imaginativa da Adidas, a Tricolore é a primeira bola colorida da Copa do Mundo. Com as cores da bandeira francesa, minúsculos hexágonos em toda a superfície e grafismos estilizados de galo (inspirados no animal símbolo da seleção nacional), a bola também trazia novidades tecnológicas. Uma camada externa de espuma sintética e micro balões com enchimento a gás altamente durável faziam com que a bola fosse ainda mais flexível ao ser chutada. Além disso, a tecnologia de impressão utilizada aumentava a longevidade e a visibilidade do design.
A Fevernova, nome que remete à febre do futebol na Ásia, foi uma bola de transição entre as versões clássicas e modernas. Foi, também, a última bola da Copa do Mundo costurada à mão. Possuía uma camada de espuma sintética que garantia performance superior e menor peso. As três camadas do chassi favoreciam a precisão e a previsibilidade da trajetória da bola. O desenho, inspirado em uma estrela ninja (shuriken), simbolizava todo o esforço que a Coreia do Sul e o Japão investiram para receber a Copa.
A Adidas construiu uma bola novinha em folha para a Copa da Alemanha. Com 14 painéis soldados com calor, a bola não tinha costuras e era totalmente à prova d’água. A primeira em mais de um século de futebol!
Seu nome, +Teamgeist, era uma referência à característica decisiva que toda a seleção necessita para levantar a taça: o espírito de equipe. Pela primeira vez, as bolas utilizadas na final da Copa do Mundo saíram com acabamento dourado simbolizando o troféu da Copa do Mundo. Esta prática ainda está em uso.
A Jabulani foi uma das bolas mais odiadas de todos os tempos. Composta por 8 painéis e uma superfície que prometia aerodinâmica superior, a bola peneirava no ar em chutes de longa distância, tornando sua trajetória imprevisível. Jogadores e críticos a classificaram como um verdadeiro desastre. Por outro lado, seu nome, que significa celebração em Bantu, um dos dialetos do país-sede, caiu na boca do povo. Suas 11 cores representavam os 11 jogadores de um time, o total de idiomas oficiais da África do Sul e o número de tribos que formaram a nação.
Curiosidades!
► A trajetória irregular da Jabulani rendeu tanto que a Nasa resolveu entrar em campo para avaliar o comportamento da bola; ► Velocidade, fluxo assimétrico, densidade do ar, empuxo, arrasto… Se você leu as matérias, certamente se deparou com estes termos. Que tal convocar os professores de física da sua escola e fazer uma parceria? Enquanto você apresenta as curiosidades da Jabulani, o professor de física explica por que ela se tornou o pesadelo dos goleiros; ► O vídeo abaixo conta por que a bola mais odiada de todos os tempos também era a mais popular.
A bola oficial da Copa do Brasil nasceu sem nome. O batismo veio somente depois de uma eleição inédita, realizada com o objetivo de recuperar a reputação da bola junto aos torcedores. O nome mais votado foi Brazuca, que venceu os concorrentes Bossa Nova e Carnavalesca. Bem colorida, a bola simbolizava a paixão e a vibração dos brasileiros pelo futebol.
As cores e o design das fitas foram inspirados nas pulseiras multicoloridas do Senhor do Bonfim. Na grande final, a bola ganhou uma edição especial, a Brazuca Final Rio, com traços dourados e verdes.
Curiosidade!
Devido ao desempenho questionável da Jabulani, a Adidas decidiu criar a bola mais testada de todos os tempos, garantindo que ficasse o mais perfeita possível. Assista ao vídeo abaixo e conheça toda a ciência por trás da produção da Brazuca.
Com os clássicos gomos pretos e brancos transformados em estampas metálicas e artes gráficas com efeito texturizado, a Telstar 18 tem design futurista. Foram feitas duas versões: uma preto e branco, utilizada na fase de grupos; e outra com tons de vemelho, a Telstar Mechta 18, utilizada a partir das oitavas.
É a primeira bola com chip NFC, dispositivo que permite interação com smartphones, tendo um número de identificação individual e habilitando conteúdos e informações exclusivas. Além disso, a embalagem e a própria bola são recicláveis, trazendo o tema da sustentabilidade para dentro dos gramados.
A bola oficial da Copa do Mundo FIFA de 2022, realizada no Catar, foi a Al Rihla. Para as semifinais e final, foi usada uma variante chamada Al Hilm. Al Rihla significa “a viagem” em árabe e o design foi inspirado na cultura, arquitetura, barcos e bandeira do Catar. Al Hilm significa “o sonho” em árabe e tinha um design semelhante à Al Rihla, mas com uma paleta de cores ligeiramente diferente.
Ambas as bolas foram fabricadas pela Adidas e utilizavam a tecnologia “Connected Ball”, com um sensor de movimento que enviava dados para auxiliar os árbitros. Além disso, eram feitas com tintas e colas à base de água, tornando-as mais sustentáveis.
A Copa do Mundo de 2026 já possui a bola oficial que será usada nos campos dos Estados Unidos, do México e do Canadá. Batizada de Trionda, ela foi revelada pela Fifa e passa a integrar o grupo exclusivo de bolas desenvolvidas para a principal competição do futebol masculino mundial.
O design apresenta elementos nas cores azul, vermelho e verde, escolhidas para simbolizar as três nações anfitriãs do torneio. O próprio nome reforça essa parceria, já que o prefixo “Tri” faz referência à realização conjunta do evento.
Derivado do espanhol, o termo Trionda pode ser interpretado como “três ondas”. Além da paleta de cores, a bola traz símbolos associados a cada país-sede: a folha de bordo representando o Canadá, a águia em alusão ao México e a estrela ligada aos Estados Unidos. Detalhes em dourado completam o visual, remetendo ao troféu da Copa do Mundo.
Finalmente…
Amadas por alguns, odiadas por outros e frequentemente um pesadelo para os goleiros, as bolas desempenham um papel muito importante nos jogos da Copa do Mundo e, portanto, merecem nossa devida atenção!
Um olhar curioso para a história das bolas da Copa do Mundo nos permite traçar um paralelo entre a evolução da forma de jogar e a forma de acompanhar o Mundial. A tecnologia e o design presente nas bolas são reflexo de outras tecnologias, como, por exemplo, a transmissão dos jogos, a necessidade de produzir bolas impermeáveis, a busca por mais precisão na trajetória dos chutes, mais velocidade, mais leveza e mais sustentabilidade.
Na próxima Sala, faremos um estudo aprofundado com o objetivo de calcular o volume da Telstar, a bola oficial da Copa do Mundo de 1970, no México. Clique aqui e divirta-se!